UOL – Registros e falta de autópsia indicam mais mortos do que índice oficial

A epidemia do coronavírus marcou um novo recorde de mortos no Brasil num período de 24 horas— foram 60 vítimas, atingindo um total de 359, de acordo com dados divulgados ontem pelo Ministério da Saúde. Mais preocupante, no entanto, é o acúmulo de fatos e informações que indicam que esse número não reflete a totalidade de vítimas da doença covid-19.

O UOL elencou sete motivos pelos quais, provavelmente, há mais óbitos por coronavírus do que vemos nos balanços oficiais do Ministério da Saúde.

O registro civil, documento factual, registra mais mortes suspeitas ou confirmadas para a doença. Há um número de óbitos em investigação, por atrasos em testes, que é maior do que a lista oficial. Há suspeitas que hospitais privados não estão notificando todos os casos. O próprio Ministério da Saúde admite a falta de testes.

Esses e outros cenários são mostrados abaixo:

Internações por insuficiência respiratória grave disparam

O Brasil teve uma explosão de hospitalizações por insuficiência respiratória grave(SRAG), segundo dados do Ministério da Saúde. A 12ª semana epidemiológica — que vai de 15 a 21 de março — teve 8.093 hospitalizações por SRAG, contra 1.061 no mesmo período do ano passado. Dessas, apenas 780 tiveram resultado positivo para covid-19.

Na 13ª semana, que foi de 23 a 29 de março, foram 7.216 hospitalizações, contra 1.123 em 2019. Ao todo, desde o início do ano, foram 25.675 hospitalizações por SRAG. Dessas, apenas 1.769 foram confirmadas para Covid-19, uma taxa de 7%.

Embora seja comum o aumento de casos de síndrome respiratória grave no período do outono, devido ao tempo seco, este ano o pico foi mais cedo. “Na época do outono temos muito mais poeira no ar, então os sintomáticos respiratórios, pessoas com asma, bronquite, rinite ficam com a doença mais exacerbada e isso já aumenta o atendimento por causas respiratórias. Mas realmente está um pouco acima do padrão esperado”, afirma o Infectologista especializado pelo Instituto Emílio Ribas, Natanael Adiwardana.

Casos suspeitos sem autópsia

Uma resolução publicada no dia 20 de março determinou que não pode ser feita autópsia para confirmação da morte em casos suspeitos de coronavírus devido ao risco de contaminação por meio dos corpos. Segundo o governo, as determinações são da própria OMS.

As mortes por SRAG sem diagnóstico exato e os casos suspeitos que não foram testados em vida devem ter material nasal e orofaríngeo coletado em até 24 horas e na autópsia deve constar a espera pelo exame. Os demais casos devem ter a declaração de óbito preenchida pelo médico que assistiu o paciente ou que constatou o óbito. Se as informações do prontuário não forem suficientes para cravar a causa, é feito um questionário verbal com a família.

Nesses casos em que a autópsia é feita por questionário verbal, mesmo que o resultado se aproxime de morte por coronavírus, o óbito não entrará na conta oficial, por se tratar de um caso não testado, de acordo com Adiwardana. “Senão você começa a ter um dado muito falseado e aí não pode confiar no seu dado depois.”

Não notificação por parte de hospitais privados

O Ministério Público de São Paulo está investigando um possível caso de não notificação compulsória de cinco óbitos decorrentes da covid-19 em dois hospitais de São Paulo.

“De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, a inspeção epidemiológica no referido hospital constatou a existência de casos suspeitos de coronavírus não notificados na unidade, fato que teria impedido a vigilância sanitária de adotar as medidas necessárias”, relata a promotora de Justiça Criminal Celeste Leite dos Santos.

Já sobre o segundo hospital, a promotora diz que ele “comunicou na data de 20/03/2020 o óbito de um paciente de 70 anos vítima do novo coronavírus, sendo esse um caso não confirmado pela Secretaria Estadual de Saúde”. Segundo ela, “trata-se de omissão de notificação de doença extremamente grave que vem crescendo exponencialmente em todos os continentes do mundo”.

Registro Civil tem mais mortes confirmadas ou suspeitas de covid

O site registro civil tinha 368 mortes assinaladas como suspeitas ou confirmadas por covid, segundo dados da transparência. Esse número é o de registros de mortes até 1º de abril, isto é, quarta-feira, pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais, que reúne cartórios pelo Brasil. Em comparação com os dados do Ministério da Saúde para aquela data, são 127 óbitos a mais do que as divulgadas.

E esse número não incluiria todas as mortes confirmadas por covid também. Em Minas Gerais, apenas um caso foi registrado como morte por suspeita ou confirmação pela doença no registro, e a estatística nacional mostra quatro casos. Rio de Janeiro e São Paulo têm registros superiores de morte por suspeita de coronavírus em relação aos dados do governo federal.

Uma portaria do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Justiça, de 31 de março, autorizou enterros e cremação sem o atestado de óbito por conta da epidemia do covid-19. Pela determinação, quando houver morte por doença respiratória suspeita para covid-19 não confirmada, deve ser descrito no registro como provável vítima ou suspeita de ser infectada pela doença.

Mortes em investigação por testes superam óbitos oficiais

Há um grupo de mortos testado para coronavírus e os resultados ainda não saíram pela demora de laboratórios. Não é possível saber o número exato para todo o país porque o Ministério da Saúde não divulga mais casos suspeitos, o que fazia até 21 de março. Nem todas as secretarias têm esse dado público.

No Sudeste, esse número é de 305 exames de mortos à espera de resultados, considerando os Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Só nesses Estados o total de mortes é de 233, isto é, inferior ao de casos suspeitos. A secretaria de saúde fluminense, por exemplo, mantém 49 casos em investigação há três dias, o que mostra o atraso na entrega dos exames.

Faltam testes

O Ministério da Saúde tinha distribuído para os estados até 1º de abril apenas 54 mil testes para coronavírus do tipo PCR, os mais confiáveis e feitos pelo sangue. É um número pequeno considerando que o Ministério da Saúde espera comprar e utilizar 14,9 milhões de exames para combater a epidemia. A pasta começou a mandar 500 mil exames rápidos para suprir a carência, embora essas verificações não sejam definitivas para determinar a infeção.

Em suas entrevistas coletivas, a equipe do ministério tem admitido que haverá um crescimento do número nas próximas semanas quando aumentar o volume de testes feitos na população.

“Há uma testagem represada, e esses números vão crescer muito até o fim de semana que vem. Está muito menor que os números que estão circulando na sociedade”, afirmou o ministro Luiz Henrique Mandetta, na quarta-feira.

Um problema é a falta de insumos para a produção dos testes já que há uma corrida mundial de países por essas substâncias, visto que são produzidos em poucos países e há excesso de demanda por conta da epidemia.

Parentes e funerárias têm relatado problemas na detecção de covid-19

Relatos de parentes, cemitérios e funerárias do Rio de Janeiro e de São Paulo feitos ao UOL indicam que há mortos em que não são feitos testes para covid-19 nem é registrada a suspeita da doença. Teoricamente, todos os casos de óbitos com insuficiência respiratória deveriam passar por investigações, mas não é o que tem acontecido.

Os casos de mortes começaram a ocorrer na semana do início da quarentena, em 24 de março, e tem se acumulado desde então. A cidade de São Paulo contratou coveiros extras nos cemitérios públicos, e há abertura de mais covas do que o costume nos locais.

Subnotificação afeta decisões sobre duração do isolamento social

Uma das consequências da subnotificação de casos e mortes do novo coronavírus é levar menos certeza às decisões sobre quando implementar, e quando relaxar, as medidas de isolamento social.

A restrição à circulação de pessoas tem sido amplamente adotada pelos governadores como forma de desacelerar a curva de propagação do vírus. Aulas foram suspensas, parte do comércio foi fechado e as pessoas estão sendo orientadas a permanecer em casa o máximo possível.

A lógica é a de que, em nenhuma parte do mundo, o sistema de saúde conseguiria absorver uma explosão súbita no número de casos e, por isso, o mais importante agora é frear a transmissão do vírus.

Mas em que momento essas medidas podem ser suspensas ou relaxadas? Para responder essa pergunta, as autoridades em saúde e os pesquisadores trabalham com a projeção de que apenas quando 50% a 60% da população possuir anticorpos contra o coronavírus é que haverá uma diminuição significativa do número de novos casos, diminuindo assim a pressão sobre o sistema de saúde.

“Por isso os testes são importantes. Imagine uma cidade em quarentena, se você sabe que 60% da população está imune, você já sabe que não vai explodir mais [o número de casos]”, afirma o epidemiologista Guilherme Werneck, vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e professor do IMS/Uerj (Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e do Iesc/UFRJ (Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, reconheceu que a falta de precisão nos dados sobre casos do vírus prejudica a definição das ações do poder público, mas afirmou que seria possível obter estimativas mais fiéis à realidade por meio de modelos matemáticos que usam o número de óbitos para projetar o total de casos.

“Prejudica. Porém, como a gente tem modelos matemáticos que em base desse daqui a gente faz as nossas projeções, a gente consegue compensar isso com modelos matemáticos”, disse o ministro.

“Então, se a gente sabe que a letalidade é tanto e a gente sabe qual o número de óbitos, a gente consegue fazer a conta de trás para frente. Tem várias maneiras de fazer. A gente está conseguindo antever o movimento dela [da curva de transmissão do vírus]”, afirmou Mandetta.

Fonte: UOL

Conjur – Direitos fundamentais em tempos de pandemia II – Hermes Junior

O desastre causado pela crise sanitária, econômica e social em curso diante da disseminação do assim designado coronavírus tem impactado o Direito de modo praticamente sem precedentes desde a devastadora “gripe espanhola”, de 1918, não considerando-se aqui as sequelas das duas grandes Guerras Mundiais e de outros conflitos armados e desastres naturais.

À vista disso, a exemplo de outros Países, no Brasil também foi decretada um estado de calamidade pública, mediante o Decreto Legislativo nº 6, de 20.03.2020, com vigência prevista até 31.12.2020, na esteira da edição da Lei nº 13.979, de 06.02.2020. Além disso, tem sido muitas as medidas tomadas nas três esferas da federação, incluindo-se a decretação do estado de calamidade em muitos estados e municípios.

A exemplo do que se verifica quando decretados os estados de defesa e de sítio, embora as diferenças substanciais no concernente aos requisitos constitucionais (formais e materiais) dos dois últimos, no estado de calamidade (assim como no estado de emergência), é permitida a flexibilização dos limites orçamentários (tal como prevê também a LC 101, de 2000, a Lei de Responsabilidade Fiscal, no seu artigo 65), além de serem legitimadas juridicamente medidas urgentes e provisórias destinadas a viabilizar o controle e superação, com eficácia, dos efeitos da situação que deu azo a tais providências1.

O Estado de Calamidade, portanto, consiste em um dos instrumentos juridicamente legítimos para que o Estado (e a sociedade civil) possam, pese as medidas excepcionais tomadas, enfrentar o problema, sem descurar da manutenção da higidez da ordem constitucional e do primado Democracia, do Estado de Direito e dos direitos fundamentais.

Nesse meio tempo, cresceram, em escala geométrica – paralelamente ao rápido avanço da pandemia -, não apenas as medidas instauradas por todos os atores estatais por todo o Brasil, mas também as publicações, em toda sorte de mídias, relativas ao tema, destacando-se, para efeitos desta coluna, a seara do Direito.

Em caráter meramente ilustrativo, refere-se aqui a análisedos aspectos econômicos, financeiros e tributários por Fernando Facury Scaff, bem como a colunado ConJur, de 23 de março, onde se tratou da importância de frear quaisquer medidas que ameacem a democracia e tendencialmente levem à ruptura com as instituições democráticas.

No tocante as medidas adotadas pela União relativas à esfera da organização e do procedimento, é de se sublinhar, desde logo, a inclusão de uma alínea C no artigo 6º, da Lei 13.979, dispondo que “[n]ão correrão os prazos processuais em desfavor dos acusados e entes privados processados em processos administrativos enquanto perdurar o estado de calamidade de que trata o Decreto Legislativo nº 6, de 2020”.

Além disso, a teor do parágrafo único do citado diploma legal, “fica suspenso o transcurso dos prazos prescricionais para aplicação de sanções administrativas previstas na Lei nº 8.112, de 1990, na Lei nº 9.873, de 1999, na Lei nº 12.846, de 2013, e nas demais normas aplicáveis a empregados públicos”.

Dentre tantos outros exemplos que visibilizam o impacto das mudanças estabelecidas em virtude do estado de calamidade pública, é o caso de aqui focar na assim chamada dimensão organizatória-procedimental dos direitos fundamentais, representada pelo problema da suspensão dos prazos processuais, nos casos em que reconhecido o Estado de Calamidade (art. 222, § 2º do CPC).2

A questão da suspensão dos prazos processuais demanda juízo de ponderação e preocupação ao mesmo tempo com a efetividade e a segurança jurídica, um binômio em permanente tensão e equilíbrio no direito processual. Afinal, também o processo é direito constitucional aplicado.3

Além disso, é possível entender que, diante da pandemia da Covid-19, o Decreto Legislativo que reconhece o Estado de Calamidade tem efeitos jurídicos também no âmbito processual.

Nesse contexto, situa-se a resolução 313/2019, de 19.03.2020, do CNJ – Conselho Nacional de Justiça, que determinou, em todo o País a suspensão dos prazos processuais até 30.04.20. O tema, aliás, já enfrentado na ConJur.

A Resolução cria um regime de plantão extraordinário no Poder Judiciário Nacional. A finalidade da Resolução é uniformizar a suspensão do trabalho presencial de magistrados, servidores, estagiários e colaboradores nas unidades judiciárias de todo país. Advogados, partes, membros do Ministério Público e interessados deverão ter disponibilizado atendimento remoto pelos meios tecnológicos disponíveis.

A medida foi muito importante, considerando que a existência de critérios conflitantes quanto à suspensão do expediente forense gera insegurança jurídica e potenciais prejuízos à tutela de direitos fundamentais. Atos normativos prevendo suspensão de prazo também foram exarados por Tribunais de Justiça, Tribunais Regionais Federais e por Tribunais Superiores, mas é importante perceber o papel representado pela Resolução 313 do CNJ, evitando a insegurança jurídica.

Na prática, contudo, com a decretação do Estado de Calamidade, a suspensão pode ser estendida para além de dois meses (art. 222, § 2º, CPC), existindo aí mais uma razão para que a tensão entre segurança jurídica e efetividade seja equilibrada para permitir que atos processuais, que não ensejarem prejuízo ao sistema de justiça e aos direitos individuais das partes, sejam praticados.

Analisemos as regras previstas pelo Código de Processo Civil. A suspensão do expediente forense equivale à feriado, para os fins da norma processual (art. 216, CPC), portanto, se aplica aqui todo o regramento processual na espécie. Com a suspensão os prazos processuais não correm, não fluem, e resta vedada a prática de atos processuais, salvo a citação, intimação e penhora e aqueles atos em que houver urgência (art. 214, CPC).

A razão pela qual o Código de Processo Civil permite a prática de ato processual urgente e a reação da parte contrária reside na paridade de armas e decorre da necessidade de tutela adequada, tempestiva e efetiva como mandamento constitucional (art. 5º, I, CF e 7º, CPC).

A doutrina costuma afirmar que não se permite, contudo, avançar no procedimento. Por exemplo, o prazo para resposta do demandado só começará a ser contado a partir do primeiro dia útil subsequente ao final da suspensão.4 Significa dizer, a suspensão resulta na retomada do prazo a partir do momento em que ele voltou a correr, considerando-se os dias já computados, até o termo final. É exatamente nisto que a suspensão difere da interrupção, que implicaria a retomada do prazo desde o termo inicial. Finda a suspensão o prazo volta a fluir do ponto em que parou (art. 221, CPC).

O tema tem sido discutido por muitos processualistas desde a edição da Resolução 313/2020, dentre outros, Daniel Mitidiero, Fredie Didier Jr., Heitor Sica, Eduardo Talamini, Marco Antonio Rodrigues, Leonardo Carneiro da Cunha, que tem alertado sobre possíveis problemas interpretativos. Assim, há quem entenda que nenhum ato processual, salvo aqueles absolutamente imperativos, pelo caráter de urgência, devem ser praticados.

Por outro lado, não faltam os que defendem a prática telepresencial de atos no processo civil, especialmente o proferimento e publicação de decisões, atos executivos como a penhora eletrônica, audiências com advogados por videoconferência e a apresentação de peças processuais deve ser admitida.

Há, ainda, aqueles que limitam a interpretação do Código de Processo Civil para permitir apenas atos relacionados à citação, intimação e penhora e à tutela de urgência. Por fim, existem aqueles que defendem terem os Juízes poderes para decidir, no caso concreto, sobre a suspensão ou restituição de prazo a cada processo individual.

Muito embora não se trate de um efeito direto relativamente aos prazos, a especificidade do processo de se desenvolver no tempo pode resultar, ainda, no reconhecimento de efeitos jurídicos da Covid-19 para as situações anteriores, constituindo, modificando ou extinguidos direitos.

Nessa linha, o art. 493 do CPC, prevê que os fatos supervenientes à propositura da ação sejam levados em consideração quando produzirem efeitos jurídicos. A pandemia e suas consequências podem, portanto, acarretar sua incidência. É bom lembrar, outrossim, que também aqui deve ser respeitado o contraditório prévio e a vedação da decisão-surpresa, o que se revela ainda mais problemático nas relações jurídicas de trato sucessivo, podendo até mesmo acarretar a revisão da sentença diante da alteração do quadro fático-jurídico (art. 505, I, CPC).

O que se postula como imperativo, é que a consistência jurídica das medidas tomadas é de ser analisada à luz do marco normativo constitucional, em especial na perspectiva de uma dogmática constitucionalmente adequada dos direitos fundamentais.

Neste sentido, do ponto de vista do acesso à justiça e à efetividade, a Res. 313, CNJ não impede decisões, especialmente sentenças e acórdãos em processos já instruídos, sessões de julgamento online, e todos os atos processuais visando dar duração razoável e efetividade ao procedimento, incluída aí a homologação da autocomposição entre às partes.5

No caso das sentenças, a intimação será realizada durante a suspensão e o prazo somente começara a fluir a partir do dia útil subsequente ao término da suspensão. Isso já tem ocorrido por todo o país, juízes continuam proferindo suas decisões normalmente.

O reconhecimento do regime excepcional não significa um lockdown do sistema de justiça. Este regime excepcional deve ser adequado às necessidades do caso. Os atos que puderem ser praticados sem prejuízo da urgência e da concentração dos esforços do sistema de justiça no combate à Covid-19 não estão vedados.

Portanto, uma interpretação conforme dos dispositivos do Código de Processo Civil, nos termos do seu art. 1º, segundo o qual o Código deve ser disciplinado, interpretado e aplicado conforme os valores e normas fundamentais previstos na Constituição, implica em reconhecer a possibilidade de praticar todos os atos processuais que não conflitem com o objetivo da suspensão, tais como: a) as videoconferências, observada a norma geral que autoriza a videoconferência (art. 236, § 3º, CPC);6b) demais atos processuais a depender das condições fáticas para a sua realização, desde que sem prejuízo da atuação de advogados e partes, preferencialmente de forma consensual.

O que se percebe, nesse contexto, é uma migração ainda maior para o sistema do processo virtual (digital/eletrônico), exigência do direito do direito fundamental à organização e ao procedimento e dos correspondentes deveres estatais de proteção.

Uma leitura atenta do Código, portanto, mostra o quanto tudo nele está direcionado para a passagem para o processo eletrônico, sem prejuízo da qualidade do acesso à justiça, desde os deveres do advogado de informar o endereço eletrônico na petição inicial, até a intimação para o cumprimento de sentença e a penhora (arts. 513, III e 837, CPC). Mais, a própria Resolução 313 do CNJ expressamente reconheceu, nos termos do Código, que a suspensão não impede os atos relacionados a pedidos de alvarás, levantamento de importância em dinheiro ou valores, substituição de garantias e liberação de bens apreendidos, pagamento de precatórios, requisições de pequeno valor e expedição de guias de depósito (art. 4º, VI, Res. 313/2020). O arco processual está integralmente compreendido, da petição inicial à satisfação.7

Evidentemente, algumas precauções devem ser tomadas, assim como devem ser respeitados os avanços já realizados por cada tribunal, no concernente à migração para o processo eletrônico, visto que nem todos os tribunais brasileiros estão no mesmo patamar relativamente a este tópico.

Note-se que o CPC prevê, inclusive, a possibilidade de ser configurada a justa causa quando ocorrer problema técnico, erro ou omissão (art. 197, parágrafo único). Além disso, regra da justa causa se aplicará em todas as hipóteses que a calamidade impedir a prática dos atos, permitindo às partes a prática do ato em momento futuro (art. 223, CPC), o CPC prevê, ainda, a restituição do prazo recursal expressamente em casos de motivo de força maior (art. 1.004).

Situações específicas como as previstas para o serviço público que impeçam o trabalho remoto justificam que advogados que trabalham sozinhos não possam ser obrigados a praticar atos processuais neste período. Assim, nos parece correto dizer que. para avançar no procedimento, a consensualidade é a chave para evitar discussões sobre nulidade e ineficácia dos atos processuais no Estado de Calamidade.

A consensualidade é a aceitação da prática desses atos pelas partes e seus procuradores, assim como pelo juiz. Neste caso, os acordos, negócios ou convenções processuais são adequados para impedir futuras alegações de nulidade ou ineficácia dos atos por dificuldades de participação das partes e seus advogados (art. 190, CPC). Há espaço inclusive para a calendarização processual (art. 191). Assim, muito embora o juiz possa realizar o gerenciamento dos seus processos de forma a garantir a efetividade e deva zelar pela duração razoável – o chamado case management judicial (gerenciamento de casos) – no caso de calamidades públicas como a Covid-19, a impossibilidade de praticar os atos processuais deve ser seriamente considerada, e pode ser alegada quando da ausência da busca do consenso entre as partes envolvidas nos procedimentos.

Assim, a melhor forma de prosseguir nos feitos pendentes para além dos atos urgentes e expressamente previstos na lei é através do case management consensual entre o juiz, as partes e seus advogados. Isso significa que os direitos fundamentais processuais são respeitados e protegidos em sua maior amplitude, tais como o direito de acesso à justiça e à efetividade da jurisdição, o direito à segurança jurídica e o auto regramento da vontade no processo.

Gostaríamos, aqui, de retomar a ideia central da presente coluna tecendo duas considerações à guisa de encerramento.

A primeira diz respeito aos direitos fundamentais à organização e ao procedimento, vinculados ao status activus processualis de Peter Häberle, na sua famosa releitura da teoria dos quatro status de Georg Jellinek.

Nessa senda, é possível afirmar que os deveres constitucionais de proteção estatais, concernentes à efetiva fruição dos direitos fundamentais, podem justificar a legitimidade jurídico-constitucional de determinadas restrições a direitos e garantias processuais decorrentes do estado de calamidade, observados, à evidência, as exigências da proporcionalidade e da salvaguarda de seu núcleo essencial. Eficazes, portanto, salvo demonstração específica em sentido contrário, as sentenças e os acórdãos proferidos nesse período, assim como válida e eficaz a autocomposição e todos os atos finalísticos praticados com a concordância das partes, que não precisem ser interrompidos em razão da pandemia.

Dito de outro modo, os deveres de proteção estatais e sua concretização mediante organização e procedimento, devem ser compreendidos de modo a assegurar aos direitos fundamentais a sua máxima efetividade possível.

Uma segunda reflexão, por sua vez, vai no sentido da necessidade da observância do contraditório ampliado para o juiz, ou, como passou a ser denominado, na incidência do princípio da vedação da decisão surpresa (art. 10, CPC).

O julgador, quando da prática dos atos processuais, pretenda aplicar de ofício norma (e argumentos) que não tenha sido ventilada e discutida previamente nos autos, a respeito do qual as partes não tenham tido oportunidade de se manifestar, deverá intimá-las para que se posicionem previamente.

Ainda que isso possa representar uma suspensão temporária do processo durante a pandemia, tal medida atende à segurança jurídica, inclusive quando se tratar de uma ampliação do thema in decidendum por fato superveniente, em virtude precisamente dos efeitos da pandemia (art. 493, CPC).

O que parece possível sustentar, ao fim e ao cabo, é que mediante a compreensão constitucionalmente adequada dos princípios, direitos e regras processuais, o sistema de justiça poderá priorizar o combate à pandemia, focando nas situações emergenciais, sem descurar do direito fundamental à uma prestação judiciária efetiva.

1 Nada obstante não seja o caso de aqui aprofundar o tema, é de extrema relevância pontuar que tanto os estados de calamidade pública e de emergência, que também podem ser decretados em nível municipal e estadual, não se confundem com os dois estados de exceção expressamente positivados como tais e autonomamente regulados no texto constitucional, designadamente, os já mencionados estados de defesa e de sítio.

2 “Art. 222. Na comarca, seção ou subseção judiciária onde for difícil o transporte, o juiz poderá prorrogar os prazos por até 2 (dois) meses. (…) § 2º Havendo calamidade pública, o limite previsto no caput para prorrogação de prazos poderá ser excedido.”

3 Seguindo aqui a linha do formalismo-valorativo defendida na doutrina por Carlos Alberto Alvaro de Oliveira (ALVARO DE OLIVEIRA, Carlos Alberto. Do Formalismo no Processo Civil. Proposta de um Formalismo-Valorativo. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010).

4 MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Código de Processo Civil Comentado. 3ª ed. São Paulo: RT, 2017, p. 332.

5 “Art. 205. Os despachos, as decisões, as sentenças e os acórdãos serão redigidos, datados e assinados pelos juízes. (…) § 2º A assinatura dos juízes, em todos os graus de jurisdição, pode ser feita eletronicamente, na forma da lei. § 3º Os despachos, as decisões interlocutórias, o dispositivo das sentenças e a ementa dos acórdãos serão publicados no Diário de Justiça Eletrônico.” Cf., ainda, https://www.cnj.jus.br/cnj-esclarece-obrigacoes-da-resolucao-313-2020/. Mesmo nos locais onde não há a universalização do processo eletrônico a prática da assinatura digital e a publicação no Diário de Justiça Eletrônico são possíveis.

6 “Art. 236. Os atos processuais serão cumpridos por ordem judicial. (…) § 3º Admite-se a prática de atos processuais por meio de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real.”. Há inclusive norma que prevê a sustentação oral telepresencial ou outro recurso tecnológico, como a gravação de vídeo-memorial (art. 937, § 4º, CPC), muito embora limitada a advogados com domicílio profissional fora da sede do tribunal, o que por analogia, se aplica a situação em que vivemos de falta de acesso físico ao tribunal, assim como, a permissão de atos por videoconferência durante a realização da audiência de instrução e julgamento, tais como a oitiva de testemunhas e o depoimento pessoal, pode ser estendida para a prática de toda a audiência caso interpretada de forma extensiva (arts. 385, § 3º e 453, § 1º, CPC).

7 A pandemia, portanto, provoca uma reflexão sobre a necessária virada completa da justiça brasileira para a facilitação do acesso à justiça através das novas tecnologias. Mecanismos de ODR (online dispute resolution) como a plataforma consumidor.gov do Ministério da Justiça são um exemplo do que pode ser feito, inclusive em coordenação com o Poder Judiciário, para que o serviço público de justiça não fique totalmente paralisado neste período de crise, em prejuízo dos jurisdicionados e dos 1.190.72 advogados registrados na

Fonte: Consultor Jurídico

CNJ – População pode se inscrever em cursos oferecidos pelo CNJ

Durante o período de isolamento social, o Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Servidores do Poder Judiciário (CEAJUD) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) vai manter seus cursos a distância, inclusive os módulos disponíveis à sociedade. Tanto os cursos produzidos pelo CNJ, quanto os oferecidos pela parceria com o STF Educa podem ser acessados pela plataforma. As novas turmas começam em abril e devem ser concluídas no final de maio.

Os cursos voltados para o público em geral são autoinstrucionais – sem tutor – e oferecem certificado aos que concluírem o módulo. A cada dois meses são abertas novas turmas. No período de fevereiro a março, cerca de 11.800 pessoas se inscreveram nas capacitações. Entre os cursos abertos do CNJ estão: Oficina de Pais e Mães On-line, Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, Metodologia de Análise e Solução de Problemas e Gestão da Qualidade, entre outros. As inscrições já podem ser feitas aqui.

Pela parceria com o STF Educa, os cidadãos podem participar, também pela plataforma do CNJ, dos seguintes cursos: Atualização Gramatical, Introdução ao Direito Constitucional e ao Controle de Constitucionalidade e Quando nasce um pai: orientações básicas sobre paternidade responsável. Os módulos receberam quase 9.500 inscrições desde o início da parceria entre o CNJ e o Supremo Tribunal Federal, em fevereiro. Além disso, há dois novos cursos sendo oferecidos: Imunidades e Isenções Tributárias na Constituição e no STF; e Reflexões sobre a Lei de Improbidade Administrativa.

Servidores

O CEAJUD também está preparando novos cursos para serem ofertados a magistrados e servidores do Poder Judiciário. As novas turmas serão acompanhadas por tutores. Entre os módulos previstos estão: Formação de Medicadores e Conciliadores em EAD, Admissibilidade Recursal, Diversidade e Gênero no Poder Judiciário, Perícias Médicas, Marco Legal da Primeira Infância, Gestão de Programas e Projetos de Implantações PJe. A expectativa é de que alguns cursos sejam lançados ainda em abril.

O CNJ é referência na administração pública quando se trata de educação a distância. Em 2009, iniciou a implantação dessa forma de ensino em todo o Poder Judiciário, com a edição de normativos, realização de fóruns e seminários de sensibilização e investimento em pesquisas e publicações mostrando as vantagens da EAD. Atualmente, todos os órgãos do Poder Judiciário já oferecem cursos on-line. A oferta desses cursos corresponde a 25% de todas as capacitações realizadas nos tribunais, segundo dados do Relatório Anual de Formação e Aperfeiçoamento de Servidores do Poder Judiciário, produzido pelo CEAJUD.

Fonte: Conselho Nacional de Justiça

Clipping – Contabeis – LGPD: Lei Geral de Proteção de Dados pode ser prorrogada

Dois projetos de Lei que pretendem prorrogar a LGPD em 18 meses seguem em tramitação no Congresso.

Os poderes Judiciário e Legislativo se uniram para montar um projeto de lei que suspende inúmeras regras e determinações até o fim de 2020, entre elas a LGPD – Lei Geral de Proteção de Dados.

A LGPD entraria em vigor em agosto, contudo o projeto pretende prorrogar o prazo em 18 meses, tendo em vista a disrupção causada pela pandemia de coronavírus que provocará, certamente, milhares de ações na Justiça por diversos motivos.

LGPD

Dois projetos de lei apresentados no Senado – o 1.027/2020 e o 1.179/2020 – pedem que a entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) seja postergada em 18 meses, entrando em vigor apenas em fevereiro de 2022.

Apresentado no início de março, o PL 1027/2020, do senador Otto Alencar, justifica o adiamento por considerar que a estrutura institucional que dá apoio à lei não está pronta – em especial, o senador se refere à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), órgão ligado ao governo e que deverá fiscalizar o cumprimento da lei.

Já o texto do PL 1179/2020, divulgado na última terça-feira, aparece em meio a um conjunto de mudanças propostas por conta da pandemia do Covid-19.

Empresas não se prepararam

Segundo pesquisa divulgada no segundo semestre do ano passado pelo Serasa Experian, 85% das empresas ainda não estavam preparadas para as exigências dispostas na LGPD. O estudo envolveu executivos de 508 empresas do País, divididas entre 18 setores de atuação e dos mais variados portes.

“Ao começar em 2020, se repetida a pesquisa, os números não seriam muito diferentes, em especial no setor da saúde, que ocupava a última posição entre os setores mais preparados para a LGPD, com apenas 8,7% das companhias em conformidade com as novas obrigações. Então, melhor não ficar esperando para ver o que vai acontecer. Vamos continuar trabalhando no sentido de promover a entrada desta lei que, apesar de toda esta crise, continua sendo fundamental para a sobrevivência do seu negócio”, avalia Edna Castro, vice-presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação de Minas Gerais.

Fonte: Contábeis

Juristas – Adolescente ganha nome de segundo pai em sua certidão de nascimento

Uma adolescente de 15 anos acaba de ganhar o nome de um segundo pai em sua certidão de nascimento. A jovem passará a usar também o sobrenome do padrasto em seus registros, fruto de decisão judicial de lavra do juiz de direito Luiz Cláudio Broering, titular da 2ª Vara da Família da Comarca de Florianópolis (SC).

A ação de multiparentalidade socioafetiva foi proposta por seu padrasto, com sua anuência, no entanto teve a oposição do pai biológico. Estudo social realizado no curso do processo judicial, aliado aos depoimentos colhidos das partes e testemunhas, demonstrou ao juiz de direito que a solução do caso envolvia reconhecer a paternidade do padrasto como medida de justiça. De acordo com os autos, o casal vivia em união estável desde o ano de 1984.

No ano de 2005, entretanto, houve uma breve interrupção na relação e no espaço de 15 meses a mulher teve um novo companheiro, e com ele uma filha. Três meses depois, ela rompeu o caso e retornou ao antigo companheiro, com a filha no colo. A criança não foi empecilho e o relacionamento com o padrasto ocorreu da melhor maneira possível. A jovem cresceu acostumada a chamar e tratar o companheiro de sua genitora como pai. A decisão do juiz de direito Broering foi prolatada no último dia 27 de março. O processo tramita em segredo de justiça.

Cabe recurso ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC).

Fonte: Juristas

Jota – PL de Toffoli prevê adiamento da Lei Geral de Proteção de Dados

Projeto define regime jurídico emergencial, alterando regras sobre Direito do Consumidor

Um projeto de lei encabeçado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, pretende alterar regras de Direito do Consumidor e medidas anticoncorrenciais como forma de auxiliar as empresas durante a crise do coronavírus. Os temas constam no PL 1.179/2020. Caso o projeto seja aprovado deixará de ser qualificada infração à ordem econômica a venda de produtos e a prestação de serviços abaixo do preço de custo, além de ficar suspensa a possibilidade, pelo consumidor, de desistência de compras feitas de forma online.

O PL foi protocolado no Senado pelo presidente em exercício da Casa, Antonio Anastasia (PSD-MG), e trata da situação dos contratos privados para o período da pandemia, ou seja, é excepcional e temporário. Neste cenário, o projeto afasta a carga ilícita de condutas que seriam consideradas anticoncorrenciais. A proposta define que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) considere, quando da análise de casos concretos no futuro, que neste período algumas condutas não podem ser tidas por ilícitas já que o país vive uma situação excepcional.

A proposta considera o dia 20 de março como marco temporal dos temas definidos no texto do projeto. A data é a da publicação do Decreto Legislativo nº 6, que definiu o estado de calamidade pública pela covid-19. As consequências decorrentes da pandemia nas execuções dos contratos não terão, de acordo com o PL, efeitos jurídicos retroativos.

“Não se consideram fatos imprevisíveis, para os fins exclusivos dos art. 478, 479 e 480 do Código Civil, o aumento da inflação, a variação cambial, a desvalorização ou substituição do padrão monetário”, estabelece, fazendo referência aos dispositivos do Código Civil pelos quais os contratos comerciais podem ser revistos diante de fatos imprevistos ou posteriores à locação se isso prejudicar uma das partes contratantes. Estes aspectos não são tidos como imprevistos, ainda que durante a crise.

Mas as medidas de combate e prevenção à disseminação da doença afetam, sim, a logística de entregas de compras feitas online ou por telefone. Como forma de garantir que as entregas sejam feitas, pensou-se em suspender, no período da vigência da lei, o direito do consumidor de desistir da compra no prazo de sete dias.

O Projeto de Lei 1.1179 foi idealizado por Toffoli e elaborado por um grupo de juristas, enfrentando assuntos de direito privado afetados pela pandemia. Ele trata de temas da Parte Geral do Direito Civil (prescrição e decadência), do Direito das Obrigações e Contratos (resolução, resilição e revisão contratual), do Direito das Coisas (condomínio e usucapião), do Direito de Empresa (assembleias societárias), do Direito de Família (prisão do devedor por dívidas alimentares), do Direito de Sucessões (prazos), além de abranger temas de Direito do Consumidor (delivery), de Direito Agrário e da Lei de Proteção de Dados.

As alterações propostas não são definitivas, tendo prazos de vigência definidos para cada trecho. Em conversas com o conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e professor da USP Otavio Luiz Rodrigues Jr.; Fernando Campos Scaff, da Faculdade de Direito da USP e Rodrigo Xavier Leonardo, da Universidade Federal do Paraná, o JOTA destrinchou os temas abordados:

Adiamento da vigência da LGPD por 18 meses

A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) exige adaptações e investimentos de diferentes ordens, desde soluções de tecnologia até o refinamento de procedimentos, sob pena da aplicação de sanções às companhias.

A superveniência da pandemia da Covid-19 e o isolamento compulsório tem o potencial de obstaculizar essas adaptações às vésperas da entrada em vigor da LGPD, ensejando a aplicação de multas que podem chegar à casa dos milhões de reais. O projeto propõe uma dilatação do prazo de “vacatio legis”, como, por exemplo, define o projeto do senador Otto Alencar, o PL 1027 — protocolado na última quinta-feira (26/3). A ideia é prorrogar a vigência de dispositivos da LGPD de agosto de 2020 para 16 de fevereiro de 2022.

Suspensão do prazo para desistência de compra online

Durante a pandemia da covid-19, o isolamento compulsório propiciou um aumento vertiginoso das operações de venda com entrega mediante delivery. Nas vendas realizadas fora do estabelecimento do fornecedor, como se sucede com as operações on line, o consumidor pode “desistir” da aquisição, e tecnicamente desfazer unilateralmente o contrato, devolvendo o produto com a restituição da integralidade do preço. As medidas de isolamento compulsório afetaram sensivelmente a possibilidade de ambos os contratantes (consumidores e fornecedores) desfazerem os contratos de compra e venda. É necessário, para os autores do PL, garantir a segurança e a previsibilidade das vendas por delivery, até mesmo para que as famílias sejam atendidas em suas necessidades, a despeito da limitação de locomoção. Por essas razões, no período de vigência da lei, caso aprovada, a possibilidade de se arrepender das compras on line será obstaculizada.

Práticas anticoncorrenciais

O projeto de lei faz uma modificação relacionada a práticas anticoncorrenciais. Neste período, deixa de ser qualificada como infração à ordem econômica a venda de produtos e a prestação de serviços abaixo do preço de custo e, também, a interrupção, total ou parcial, das atividades de uma empresa sem justa causa. Nestes casos, afasta-se a antijuridicidade dessas condutas que, em tempos ordinários, poderiam ser consideradas anticoncorrenciais. As demais situações adjetivadas pelo legislador, como infração da ordem econômica, continuariam em vigor, mas devem ser interpretadas levando em consideração as consequências provenientes da pandemia da covid-19.

Prazos prescricionais para usucapião até 30/10

No caso da prescrição, o exercício das pretensões (o poder de exigir prestações) pode ser extremamente dificultado pelo isolamento compulsório. Algumas prerrogativas do credor, como a possibilidade interromper o curso do prazo prescricional, também podem ser materialmente prejudicadas. De acordo com os autores do projeto, vem daí a necessidade, neste período de crise, de suspender os prazos prescricionais durante a vigência da lei.

Suspensão da contagem de tempo para usucapião

A usucapião gera a aquisição da propriedade, pelo usucapiente, e a perda da titularidade, pelo proprietário, em virtude do transcurso do tempo adicionado a outros fatores. Durante o período de vigência da lei seria reconhecida a dificuldade, pelos proprietários, de tomar providências efetivas para defender o exercício da propriedade e, assim, evitar a usucapião nas diferentes modalidades existentes no ordenamento jurídico brasileiro. Por essa razão, no espaço de tempo de vigência da lei pretendida, ficaria suspensa a contagem do prazo para a usucapião.

Suspensão de ordens de despejos até 31/12

Com a aprovação do PL em sua redação atual, nas demandas judiciais propostas a partir de 20 de março ficaria vedada a determinação liminar de despejo até 31 de dezembro. A proposta legislativa busca resguardar a situação de fato nas locações em virtude das circunstâncias excepcionais vivenciadas no Brasil. Não seriam obstaculizadas a tramitação dos processos judiciais de despejo, apenas a tutela de urgência de despejo seria momentaneamente afastada. A provisória vedação às liminares de despejo é aplicável a todas as modalidades de locação.

Situações previsíveis

O aumento da inflação, a variação cambial, a desvalorização e também a substituição do padrão monetário são fatos econômicos vivenciados na história do Brasil desde o século XX. A jurisprudência dos tribunais superiores cuidadosamente afastou a qualificação jurídica desses fatos como imprevisíveis para o Direito Civil e Direito Comercial. Ao contrário, para o Direito do Consumidor a exigência dos fatos imprevisíveis é dispensada.  O PL, de acordo com os autores, sublinha esta interpretação consolidada e, assim, procura evitar uma judicialização abusiva: preservam-se os contratos, mas não se prejudicam os consumidores, que seguem dispensados dos requisitos mais rígidos do Código Civil.

O grupo de trabalho conta que têm sido constantes as informações de que contratantes, por vezes, têm declarado o descumprimento antecipado dos contratos por conta da covid-19, impondo uma moratória forçada com a esperança de obter benefícios em revisões contratuais. Estas posturas precisam, para eles, ser refreadas, reservando a revisão contratual para os casos em que o Código Civil e o Código de Defesa do Consumidor já regulam bem, mesmo com a pandemia.

Terras para estrangeiros

As sugestões vão em dois sentidos. Segundo os autores, o arrendamento e a parceria têm uma série de cláusulas previstas, em um contexto histórico de quando havia uma ideia de que o arrendatário teria uma condição econômica inferior à do arrendante, o dono da terra. No Estatuto da Terra se estabeleceu proteções a essa relação, como prazos mínimos de contratação e renovação automática, a menos que o proprietário diga com seis meses de antecedência que não quer mais e ele mesmo vai assumir a atividade naquela área, além de valores máximos de pagamento, tanto pra parceira como para arrendamento. No entendimento dos juristas que elaboraram a proposta, porém, a realidade não é mais essa. Hoje, os arrendatários são grandes empresas, como de celulose, laranja, madeira, usinas que têm benefícios de uma legislação que não foi pensada originalmente para elas — mas para arrendatários que eram pessoas físicas com baixa condição econômica, que lavravam elas mesmo a terra e eram a parte frágil. E, no momento de crise, eles entendem este fator como um entrave para o contrato, que fica amarrado, com benefícios exagerados.

O segundo ponto tem a ver com o arrendamento. Diante da permissão para que estrangeiros possam apenas ter parcerias, e não se tornarem arrendatários, isso poderia constituir um entrave à atividade. A parceria tem uma incerteza quanto ao que o proprietário vai perceber, já que apenas com lucro é que há pagamento, e o arrendamento já estabelece logo as regras do jogo. Essa reinterpretação de terras para estrangeiros aconteceu porque a limitação tolhe a própria atividade. Neste período, uma das atividades que deve dar suporte ao Brasil é a agrária e pecuária, segundo os autores do projeto, então está-se tentando desregulamentar a forma de contratação, derrubar algumas limitações para incentivar a atividade e a concorrência.

Fonte: Jota

Cartórios apresentam plataforma eletrônica que reúne óbitos por covid-19

Portal apresenta dados em tempo real das principais causas mortis relacionados à pandemia e comparações com o ano de 2019 em todo o Brasil

Os Cartórios de Registro Civil do Brasil registraram até às 20h desta quarta-feira (01.04) 294 óbitos cujas “causas mortis” foram identificadas como suspeita ou confirmação de COVID-19 por médicos que assinaram atestados de óbitos em todo o País. Os números fazem parte do Portal da Transparência transparencia.registrocivil.org.br/especial-covid, plataforma eletrônica que reúne os dados registrados pelos cartórios de todo o País e que é administrada pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil).

O portal tem o objetivo de proporcionar uma melhor compreensão do impacto da pandemia do novo coronavírus sobre a sociedade brasileira, contribuindo para a apuração de subnotificações de casos fatais. São Paulo, com 203 óbitos, e Rio de Janeiro, com 46, são os estados com mais mortes registradas como confirmadas/suspeitas de COVID-19. Na sequencia aparecem Distrito Federal com 8 casos e Pernambuco, com 7.

A plataforma disponibiliza, ainda, as estatísticas de registros de óbitos cuja causa mortis foi apontada pelos profissionais de saúde como Insuficiência Respiratória e Pneumonia, condições relacionadas ao surto de COVID-19, que podem constar como causas de falecimentos. Somente no mês de março de 2020 foram registrados 9.036 óbitos destas doenças em todo o País.

“Trata-se de um serviço de transparência para a população, para o governo, sociedade e para a imprensa acompanharem, em tempo real, as informações desta grave crise de pandemia mundial e seus reflexos no Brasil”, explica o vice-presidente da Arpen-Brasil, Luis Carlos Vendramin Júnior. “Assim como outras profissões essenciais, os cartórios seguem abertos, registrando nascimentos, óbitos e fazendo os atendimentos à população em meio a esta crise de saúde pública”, completa.

Mesmo a plataforma sendo um retrato fidedigno de todos os óbitos registrados pelos Cartórios de Registro Civil do País, os prazos legais para a realização do registro e para seu posterior envio à Central de Informações do Registro Civil (CRC Nacional), regulamentada pelo Provimento nº 46 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), podem fazer com que os números sejam ainda maiores.

Isto por que a Lei Federal 6.015 prevê um prazo para registro de até 24 horas do falecimento, podendo ser expandido para até 15 dias em alguns casos, enquanto a norma do CNJ prevê que os cartórios devem enviar seus registros à Central Nacional em até oito dias após a efetuação do óbito. Portanto, o portal que é atualizado dinamicamente

A Covid-19 é uma doença altamente contagiosa que já deixou mais de 30 mil mortos no mundo. A primeira morte em decorrência da infecção pelo novo coronavírus foi registrada no Brasil no dia 16 de março. Entre seus sintomas, estão tosse seca, coriza, dor no corpo e febre – todos muito semelhantes aos apresentados em casos de gripes e resfriados. Segundo dados do Ministério da Saúde 86% dos casos de Covid-19 não apresentam sintomas. Para garantir o diagnóstico, são necessários testes específicos, que estão cada vez mais escassos nos postos de atendimento.

Fonte: Assessoria de Imprensa

Veja – Coronavírus: cartórios registram mais óbitos por Covid-19 que Ministério

Números fazem parte de plataforma eletrônica que reúne os dados registrados pelos cartórios de todo o país

Dados divulgados pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) informam que o Brasil teve, até as 20h desta quarta-feira, 294 óbitos com “causa mortis” identificada como suspeita ou confirmação de Covid-19 por médicos que assinaram atestados de óbitos em todo o país. Dados do Ministério da Saúde, no entanto, dão conta de 241 mortes até a tarde de quarta-feira.

Os números fazem parte do Portal da Transparência (transparencia.registrocivil.org.br/especial-covid), plataforma eletrônica que reúne os dados registrados pelos cartórios de todo o país. O site tem o objetivo de proporcionar uma melhor compreensão do impacto da pandemia do novo coronavírus sobre a sociedade brasileira, contribuindo para a apuração de subnotificações de casos fatais.

São Paulo, com 203 óbitos, e Rio de Janeiro, com 46, são os estados com mais mortes registradas como confirmadas ou suspeitas de Covid-19. Na sequência aparecem Distrito Federal, com 8 casos, e Pernambuco, com 7.

Fonte: Veja

R7 – Cartórios registram mais óbitos por covid-19 que Ministério da Saúde

Foram 323 certidões de óbitos emitidas relacionadas ao coronavírus nos cartórios de todo o país, 82 a mais do que o número divulgado pelo governo

Levantamento da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais, que reúne cartórios de todo o país, aponta que até às 20h00 desta quarta-feira (1º), foram registrados 323 óbitos em que a causa da morte era apontada como suspeita ou confirmação de covid-19, 82 óbitos a mais do que divulgado no último balanço do Ministério da Saúde, que apontava 241 mortes.

Leia mais: Um em cada quatro pacientes com covid-19 em SP está internado

Ainda segundo a entidade, São Paulo, com 224 óbitos, e Rio de Janeiro, com 53, são os Estados com mais mortes registradas como confirmadas/suspeitas do novo coronavírus.  Na sequência aparecem Distrito Federal, com 10 casos, e Pernambuco, com 7.

A entidade passou a divulgar em seu portal de trânsparência dados de mortes relacionadas à pandemia do novo coronavírus para “proporcionar uma melhor compreensão do impacto da pandemia do novo coronavírus sobre a sociedade brasileira, contribuindo para a apuração de subnotificações de casos fatais”. 

A plataforma disponibiliza ainda as estatísticas de registros de óbitos cuja causa mortis foi apontada pelos profissionais de saúde como Insuficiência Respiratória e Pneumonia, doenças relacionadas ao surto de Covid-19, que podem constar como causas de falecimentos. Somente no mês de março de 2020 foram registrados 9.036 óbitos destas doenças em todo o País.

“Trata-se de um serviço de transparência para a população, para o governo, sociedade e para a imprensa acompanharem em tempo real as informações desta grave crise de pandemia mundial e seus reflexos no Brasil”, afirmou Luis \carlos Vendramim, vice-presidente da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais.

A entidade destaca ainda que “mesmo a plataforma sendo um retrato fidedigno de todos os óbitos registrados pelos Cartórios de Registro Civil do País, os prazos legais para a realização do registro, podem fazer com que os números sejam ainda maiores”.

Segundo a legislação, o registro de falecimento pode ser feito em até 24 horas, e pode ser prorrogada para até 15 dias, sendo que as notificações para a Central Nacional pelos cartórios, podem ocorrer em até oito dias.

Fonte: R7